top of page

O anúncio veio

- presumo –

ao contrário de apocalípticas

trombetas

ruídos conhecidos

como nos ensinavam

em tenra infância

arrumação de casa

lá no alto Paraiso

imaginário

teimosia de torná-lo real

pisado por pés humanos

pensados por mentes

talvez insanas

realidade tantas vezes

surreal


Logo os móveis pareceram arrumados

de cima tarefa dada por

acabado

já só caiam

- foram tão poucas!

míseras gotas

o resto

das águas da lavação

ora louvada.

 

Longo o período de

estio

maltratados ensujecidos secos

eram os rios

de esperança os corações

fazendo-se vazios


Ei-la chegando

tímida e bela

como a nubente do poeta

toca suave o telhado

de lá emana som

jamais imaginado

não é Bach

Chopin não era

nem de outros a arte

inata...

Aos ouvidos

secos também

chegou o som

nos corações tocaram as cordas

todas em serenata

ou quem sabe

a melhor de todas as

sonatas.

24.09.2024. 08:30

__________________________________________________________________________________

*Saudação à breve e pobre chuva caída naquele dia, naquela hora, na área em que reside o editor deste blog. Ao início da tarde, uma chuva quase igual às que se conhecem como amazônicas (trovões, muita água, fartura passageira) desabou esperanças sobre o solo e os que o pisam.

No blog da comunicadora Ana Cláudia Jatahy (jaraquinarede.com.br) encontro oportuno e bem-escrito texto, de autoria do procurador do Estado Ronald Peres. No esclarecedor trabalho, o autor trata da Revolução de 1924 em Manaus, que terminou por derrubar a oligarquia dos Rego Monteiro. A leitura do agradável texto tornou-se para mim ainda mais interessante, por mencionar uma das figuras mais emblemáticas da política regional no século XX. Refiro-me ao então tenente Magalhães Barata, um dos jovens militares que participaram do movimento liderado por Ribeiro Junior. Da participação de Barata eu tinha conhecimento; do papel destacado dele na derrubada de Rego Monteiro eu quase nada sabia. Alguns hão de perguntar porque a presença do tenente Joaquim de Magalhães Cardoso Barata mereceu minha atenção. É fácil justificar. Basta dizer da influência daquele militar na vida política do Pará. E acrescentar acontecimentos de que participei ativamente, em razão da liderança que ele exerceu durante cerca de 30 anos no estado onde nasci. Um dos interventores designados por Getulio Vargas, Barata depois tornou-se governador do Pará, quando venceu a eleição de 1946. Derrotado por outro colega de farda, o general Alexandre Zacarias de Assumpção em 1950, o ex-interventor e ex-governador ganhou o mandato de senador no pleito seguinte. Já nesse cargo, ocorreu sua aproximação com meu pai, o funcionário de carreira dos Serviços de Navegação e Administração do Porto do Pará-SNAAPP, João Baptista Seráfico de Assis Carvalho. Porta-voz e interlocutor dos interesses dos marítimos junto ao senador Magalhães Barata, meu pai fez-se admirado pelo fundador e Presidente estadual do Partido Social Democrático. Primeiro, pela facilidade de argumentação, demonstrada quando levava os pleitos da categoria profissional a que pertencia. Mais tarde, pela posição assumida, diante de ataques e vitupérios lançados contra Barata por um de seus muitos adversários políticos. Na roda de amigos estavam, dentre outros, meu pai, um ex-chefe de polícia designado pelo ex-governador Barata, um deputado de partido opositor do líder pessedista e o então chefe da Casa Civil de Zacarias de Assumpção. Deste partiram as agressões verbais a que Seráphico respondeu com elegante e contida veemência. O quanto bastou para o ex-auxiliar de Barata provocar um encontro do meu pai com o líder paraense do partido pelo qual Juscelino Kubitscheck de Oliveira se elegeu Presidente da República. Poucos meses depois, João Seráphico era eleito vereador do PSD à Câmara Municipal de Belém e designado pelos colegas para a vice-liderança da bancada naquela casa legislativa. Marcou-se naquele momento o início do que seria longa carreira política, não fosse a mesquinhez de adversários incomodados com a ascensão de um homem pobre e reto, no cenário político paraense. Mesmo traído quando disputou a Presidência do chamado legislativo-mirim, João Seráphico não poderia imaginar quanto a solércia e o ódio costumam trabalhar juntas. Tal constatação ocorreu, quando ele, já exonerado das funções de Superintendente de Navegação dos SNAAPP, foi injustamente caluniado por adversários, porta-vozes dos interesses de alguns militares da Marinha. Primeiro civil a dirigir a navegação na Amazônia, a ele fora dada a preferência, quando Barata respondeu à solicitação de JK. Passados 6 anos ( 1966-1961), desde que assumiu o cargo, meu pai foi acusado de ter favorecido os candidatos do PSD, valendo-se dos navios da autarquia de que era um dos dirigentes. Um processo judicial foi instaurado, dando oportunidade a que o ex -superintendente provasse sua absoluta isenção. Por isso, nunca o processo chegou a julgamento. A punição impossível de aplicar foi substituída pela espada de Dâmocles que o impediu de concorrer em outros pleitos. Estava sub judice, não poderia candidatar-se. Barata já era morto. O texto de Ronald Peres fez-me resgatar esse registro memorial, feito em homenagem ao estudioso da História do Amazonas que enriquece o quadro da Procuradoria de Justiça de seu Estado.


Faz hoje exatamente 70 anos, desde que antecipei aprendizado enriquecido ao longo de toda minha vida. Passadas mais de oito décadas, relembro até o dia em que o conceito de Aristóteles (o homem é um animal essencialmente político) me atraiu e ainda hoje me desafia. Já contei algumas vezes quando tive a atenção voltada para os fatos políticos, então um adolescente que cursava a 2ª série ginasial, no Colégio Estadual Paes de Carvalho-CEPC, na cidade onde nasci. Era quente aquela manhã, como quase todas na cidade de Belém do Pará, nesta fase do ano. Essa manifestação da natureza não nos surpreendeu, a mim e aos colegas que pretendiam entrar pela porta principal do velho e respeitado colégio público do Pará, inaugurado em 1841. Surpreendeu-nos, isto sim, a razão de sermos impedidos de cumprir as obrigações ginasianas: fora decretado feriado nacional, diante do suicídio de Getúlio Vargas. O Presidente da República matara-se com um tiro no coração. Naquele exato momento, iniciava-se dentro de mim, coração e cérebro, o processo que me faz atento ao mundo que me cerca e àquele ao qual só eventualmente tenho acesso. Seja pela literatura, seja pelo convívio social, seja pela interlocução com pessoas sem discriminação de qualquer natureza, seja ainda por eventuais e agradáveis viagens a outras plagas, despertava em mim, no 25 de agosto de 1954, o gosto pelas coisas da Política. Como se à morte do Presidente correspondesse o nascimento de um interesse que, descubro depois, deveria seduzir e entreter todo aquele que se pensa humano. O tiro que feriu o coração de Getúlio foi o mesmo que, disparado pelo ex-membro da Juventude Comunista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, saiu-lhe pela culatra. Daí o adiamento para dez anos depois, do golpe de estado que se vinha tramando contra o líder da Revolução de Trinta. O mesmo que, reivindicado nas ruas ainda hoje, deixou sequelas nem sempre fáceis de remover, a despeito do quão desejável tal remoção, pelo menos para grande parte da população honesta e democrática. Naquele mesmo ano, pude experimentar mais que a repercussão da morte de um político que saía da vida para entrar na História (ele mesmo o disse, em sua carta-testamento). Uma espécie de aulas práticas do fazer político me pôs em contato com a realidade - da minha cidade, sua periferia e as gente sofrida que a habita. Candidato a vereador em Belém, meu pai me levava às visitas, reuniões e outros eventos políticos, próprios das campanhas eleitorais. Para um garoto de 12 anos, mais que motivo de encantamento. Como se estivesse saindo de outra caverna, uma vez que a primeira havia sido abandonada quando ainda tinha somente 5 anos de idade. Fiz-me alfabetizado, nesse então. Fiz-me em processo de politização naquele ano, decorridos cinco desde que abandonara a primeira caverna. Durante o exercício do mandato do meu pai, de curta duração (um ano apenas, eis que João Baptista Seraphico de Assis Carvalho foi nomeado Superintendente de Navegação dos Serviços de Navegação da Amazônia e do Porto do Pará- SNAPP, órgão do então Ministério da Viação e Obras Públicas-MVOP), frequentei as sessões da Câmara Municipal de Belém. Vice-líder da bancada do Partido Social Democrático-PSD, lá também meu pai me ensinou além do que se pode esperar da paternidade séria, honesta, justa e enriquecedora. Organizador de sindicatos e associações de trabalhadores na capital paraense, dele terei recebido as diretrizes que me esforço por seguir, até que feneçam minhas últimas forças. As dele se esgotaram em 12 de fevereiro de 2000. As minhas, enquanto forem mantidas, não o apagarão de minha memória, nem cessará meu interesse pelo que considero a mais excelsa maneira de mostrar-se humano - a participação política, porque nela se encontra o espaço mais legítimo para o exercício do traço fundamental que faz diferente o animal que se diz superior, a vontade.

bottom of page